10 de jul. de 2014

JUNTANDO OS CACOS




               




     Apago a luz.
     E deixo a Noite entrar.
     Ela vem solitária, sem lua e sem estrelas...

     Um cigarro ganha vida e uma brasa atrevida desafia a escuridão.
     Por alguns minutos meu quarto se resume à um ponto luminoso.
     Uma ferida aberta ou uma luz no fim do túnel?

     O atrevimento morre no cinzeiro antes mesmo de saber a resposta.

     A luz continua apagada.
     E para não afugentar a Noite acendo uma vela.

     O fogo me hipnotiza.
     A chama chamando... a mente mentindo...
     A dor dourando o dormitório.
     O calor calando calafrios.

                              
       
     Um redemoinho de pensamentos gira sem parar...
     Tragando tudo o que está ao seu alcance.
     E entre um trago e outro vem a tontura (ou seria tortura?)
     Uma sensação de embriaguez invade.
     É inútil fechar os olhos para buscar alívio.
     (A náusea não tem medo do escuro...)

     É preciso vomitar, regurgitar, expelir, expulsar...
     Mas não consigo... e tudo continua girando...
     Parem o mundo que eu quero descer!!! (diria Raul Seixas)

     O estômago embrulhado... (e o mal estar continua)
     O peito embrulhado... (e o mal estar continua)
     A cabeça embrulhada... (e o mal estar continua)
     O corpo inteiro embrulhado...
     Como uma caixa vestindo um papel de presente.
     Já não sou mais eu...
     Sou um pacote a ser entregue à mim mesmo sem direito à troca.

                      

     Rasgo o embrulho com uma certa ansiedade.
     E quando abro a caixa, eu me vejo em pequenos pedaços.
     Um quebra-cabeça bastante singular.
     Peças que montam um grande espelho.
     (Por que sempre recebo presentes tão estranhos?)

     Paciência, persistência, concentração... Objetividade!

     Porém, um quebra-cabeça também é uma forma de diversão.
     Portanto, nada de ser tão rigoroso, nada de cobranças pesadas demais.
     O sucesso se encontra justamente no próprio ato de brincar.
     Leveza de espírito é o peso que faz a diferença.

     Quando todas as peças se encaixarem, poderei me ver por inteiro.
     Sorrir por inteiro... chorar por inteiro... sentir por inteiro...
     Ser inteiro!

     A vela dá o último suspiro e se despede.
     Outro cigarro ganha vida.
     Mais uma vez, um ponto luminoso desafia a escuridão.
     Antes, uma ferida aberta.
     Agora, uma luz no fim do túnel.
     Amanhã, quem sabe, um pedacinho de Sol...

     Quando me deito, o corpo se rende.
     E quando fecho os olhos, cacos de espelho substituem o redemoinho.
     Tudo continua girando, mas agora, com a suavidade de um carrossel.

     E é nesse embalo que todos os meus pedaços
                                                           adormecem ao mesmo tempo...




                            

          
                        

____________________________________________________________ by N.N.